Personalidades
Vicente Grassi
Vicente nasceu no dia 15 de novembro de 1948, em Água Santa, na época distrito de Passo Fundo e hoje município, mas sua família ajudou a construir a Santa Isabel. Casado com Mara Maria Grassi, é pai de Vicente Grassi Filho, 29 anos, Rosália Maria, 27, e Vinícius, 21. Seu esporte preferido é a natação. Formado em Odontologia pela Ufrgs, Grassi conta nesta entrevista um pouco sobre a sua trajetória e sua família na Santa Isabel.

Entrevista concedida à Revista Santa Isabel

Revista da Santa Isabel: Como foi a vinda para a Santa Isabel?
Vicente Grassi:
Saí de Água Santa com três anos e fui para São José do Ouro e em 1959 eu vim para Porto Alegre, trazido pelo meu irmão, José Francisco Grassi. Fiquei uma semana na casa dele e fiquei internado no mês de dezembro no Colégio Champangnat para fazer a admissão no Ginásio.
Como eu tinha vindo da terceira série primária, não consegui passar, daí passei para o quinto ano primário onde fiquei até 61, no Colégio Champangnat. Em 62 eu fiquei no regime interno do colégio, onde tinha um regime militar, o que eu agradeço pois tinha regra na vida. Tudo era dentro de um padrão: tinha que levantar, tomar café, estudar; à tarde tinha recreação. Isso me deu uma continuidade de vida e um ideal, saber o que tinha que ser feito no dia-a-dia.

Revista: Por quê o senhor veio para cá?
Grassi:
Minha família, meu irmão (José Grassi) e o meu pai tinha uma firma em sociedade com Pedro Lottici e os filho. Daí eles começaram a dividir, o Pedro Lottici veio para Canoas e os Grassi vieram para a Santa Isabel. Quem veio para cá foi o Zé e ele começou a trazer os meus irmãos mais velhos. Aí em 60 ele me trouxe para a Santa Isabel. Na época eu vim para trabalhar e estudar, mas com seis anos de idade coloquei na cabeça que seria dentista. Comecei a trabalhar como balconista na madeireira nas folgas do colégio.

Revista: Quando o José Grassi chegou?
Grassi:
Em 1954 veio o Zé Grassi. Ele montou a Madeireira Pedro Lotici, pois naquela época quem mandava na firma era o Pedro Lottici. Depois eles dividiram a empresa, em 64, daí ficou Grassi.

Revista: E os outros irmãos quando vieram?
Grassi:
Depois veio o Dionísio, eu, o falecido pai (em 1965) e quando encerrou a firma lá em Passo Fundo ele trouxe a família. Quando o pai veio para cá, eu fui morar com ele, no bairro Monte Alegre. Depois que ele veio meus irmãos começaram a se deslocar. Um irmão ficou em São José do Ouro, outro foi para o Paraná. Para Viamão vieram também Zélia, Leda e Ivalino.Uma irmã é religiosa e está em São Paulo. Nós éramos nove irmãos no total.

Revista: E o seu pai trabalhava também na madeireira?
Grassi:
Ele morava no interior de São José do Ouro, onde se produzia a madeira que era distribuída pelos Grassi em Viamão e os Lottici em Canoas. Chegou um momento em que as duas famílias resolveram se dividir. Daí o pai começou a dar a parte para os filhos, dando para o Zé e o Dionísio. Naquela época, a madeireira aqui estava quase falida. Meu irmão foi para o interior comprar madeira e conseguiu levantá-la de novo. Em 65 meu pai veio para cá e junto as minhas duas irmãs.

Revista: Qual era o nome do seu pai?
Grassi:
Pedro Luís Grassi

Revista: Qual era a idade dele naquela época?
Grassi:
Ele já tinha 55 anos.

Revista: O que o senhor fazia na madeireira?
Grassi:
Quando eu vim para cá, tinha onze anos. Comecei a arrumar as mercadorias na madeireira. Eu estudava no Champagnat, à tarde eu fazia meus temas e depois ajudava na madeireira. Depois eu fiquei um ano interno no colégio, em 1961, daí só vinha no fim de semana. Mas eu preferia ficar no colégio, pois lá eu tinha amigos e aqui não conhecia ninguém. Em 62 eu saí do internato e comecei a trabalhar na madeireira. Comecei a trabalhar como balconista. Trabalhei na madeireira de 60 a 71, quando entrei na faculdade.

Revista: E quando vocês vieram para cá, como foi a adaptação?
Grassi:
Eu vim com onze anos e naquela época que me mantinha aqui era o meu irmão. Não se falava em mesada, pegava a passagem para colégio. Lá fora meu pai tinha criação de gado, lavoura, portanto comia bastante. Aqui o modo de vida era bem mais simples do que hoje. Não tinha supermercado. Fazia-se uma listinha e ia num mercado.

Revista: Como era a Santa Isabel naquela época?
Grassi:
Tinha pouca coisa naquela época. No Pasqualini era mato fechado. A Monte Alegre não existia. Quando eu cheguei aqui, pra se ter uma idéia, na Cecília tinha a piscina na frente da garagem. A água vinha daquele valão que descia do morro, a água era limpíssima. Eu freqüentei por um ano, depois começaram a surgir casas e a água começou a poluir.

Revista: O senhor participou na Paróquia?
Grassi:
Na igreja eu fiquei de festeiro, quando a gente conseguiu colocar aquele piso do lado de cima, conseguimos angariar fundos, isso nos anos 80. Depois, eu fiquei mais uns dois anos na comissão que fazia as festas, os bailes. Pra manter uma obra dessas não é fácil. O pessoal diz “ah, os padres tão levando...”, mas não é tão fácil. Tem muito comentário, voluntário é muito difícil. Ninguém quer organizar um evento porque a responsabilidade é muito grande. Eu participei também do Rotary Club de Viamão e hoje estou mais acomodado, curtindo a família.

Revista: Quem eram os seus amigos aqui na Santa Isabel?
Grassi:
Depois que eu cheguei aqui as amizades começaram a surgir. Nós começamos o futebol de salão, ali onde era o colégio dos padres. Tinha a idéia de fazer uma cancha, daí falamos com os padres e arrumamos a quadra. Fizemos a iluminação na época, cortamos algumas latas de massa de vidro, 18 litros, colocamos três lâmpadas de cem watts, colocamos postes, no dia em que ligamos não se enxergava nada, mas mesmo assim tinha pessoas que freqüentavam todas as noites.

Revista: Quem jogava?
Grassi:
O pessoal da Brigada, o time nosso da madeireira, era nós que organizávamos os torneios. Sempre tinha jogo.
Revista: Como era a quadra?
Grassi: Era um areião. Não tinha nada de asfalto, nem piso. Eu conheci o salão no Colégio Champagnat. Lá tinha várias canchas.

Revista: Que época era isso?
Grassi:
Começamos em 68. Em 1970, quando passei no vestibular, tinha um jogo à noite e eu vim, de cabeça raspada, todo mundo pegando no meu pé porque eu tinha passado.

Revista: Como foi o vestibular?
Grassi:
Fiz em 69 pra 70 e passei direto no primeiro vestibular, na Ufrgs. Eu fiz as provas da Ufrgs e estava fazendo na Puc. Na semana em que eu fazia na Puc, saia o resultado da Ufrgs. No segundo dia de prova, eu louco pra saber do resultado. Naquela época o jornal era difícil. Daqui um pouco chegou um colega com o jornal. Eu tava quase entrando na sala e fui olhar. Comecei de baixo pra cima, passei da letra x e vi o meu nome. Sai vibrando. Naquele ano, na Ufrgs, a prova era descritiva, quando fiz o vestibular foi o último ano assim, depois começou com múltipla escolha.

Revista: Começou a fazer faculdade e ainda trabalhava no balcão da madeireira?
Grassi:
A faculdade tomava muito tempo. Aula pela manhã, à tarde, noite. Não tinha horário certo. Eu ajudava na madeireira só aos fins-de-semana, quando tinha bastante movimento.

Revista: E na profissão quando começou a trabalhar?
Grassi:
Eu montei o consultório, me formei no dia sete de dezembro de 1973 e no dia 15 janeiro de 74 eu comecei a trabalhar com dentista. Consegui um pouco de dinheiro com meu pai e meus irmãos, na época era o Milagre Brasileiro,
dinheiro era fácil, assim montei o meu consultório. Durante a faculdade, tinha um consultório dentário ali no colégio Alberto Pasqualini, o doutor Ismael, eu ia lá e praticava. Na época tinha o Projeto Rondon, eu participei de um levantamento em todos os colégios de Porto Alegre. Depois fui à Nova Petrópolis e fiz o mesmo. Teve também um Projeto Rondon nacional onde eu fui para a Bahia, em Lençóis. Lá eu dava atendimento em um local muito precário, abandonado, isso em 1973. Eu e alguns estudantes de medicina e outras especialidades. Fiquei lá durante 30 dias. Foi lá que eu comecei a perder o medo.

Revista: Foi difícil cursar a faculdade naquela época?
Grassi:
Na época eu não estava muito bem financeiramente. Eu morava na Monte Alegre, descia até o campo do Jarí e pegava um ônibus Passo Dorneles. Daí eu descia no Hospital de Clínicas e atravessava até a faculdade. A outra opção era pegar o Santa Isabel e descer no Julinho (Colégio Júlio de Castilhos).

Revista: E como começou a atender no consultório?
Grassi:
Quando eu me formei tinha duas idéias: ou ficava aqui ou ia para o interior de Santa Catarina ou Paraná, por onde eu tinha andando. Daí surgiu uma peça ao lado da farmácia Panvel. Montei o escritório e comecei ali. Na época tinha um ou dois dentistas na Santa Isabel.

Revista: O senhor tinha quantos anos?
Grassi:
Eu tinha 25 anos naquela época.

Revista: Ficou naquele consultório durante quanto tempo?
Grassi:
Fiquei lá quase 15 anos. A paixão que eu sempre tive era montar o consultório como eu queria. Nem tanto sofisticado mas aprazível, confortável. Depois de lá, fiquei durante dez anos ali onde agora é a Óptica Brígido. Neste novo consultório eu estou há um ano e meio.

Revista: O senhor completa quantos anos de atendimento?
Grassi:
Em dezembro eu completo 30 anos de formatura, mais os quatro anos de faculdade, vou completar 34 anos de odontologia.

Revista: O senhor tem algum projeto para o futuro?
Grassi:
Minha filha se forma em odontologia daqui a três anos e eu vou ajudá-la. Pretendo colocá-la a trabalhar aqui, transformando o consultório em uma clínica odontológica e trazendo mais alguns profissionais para trabalhar aqui.

Revista: O que mudou do Vicente Grassi daquela época em que estudava para agora?
Grassi:
Pensar duas vezes antes de fazer qualquer coisa. A gente vai amadurecendo ao olhar para trás. Nós tentamos passar para os filhos, mas às vezes as pessoas não acreditam. O futuro está aí, preserve o seu futuro. Faça uma poupança para quando chegar a velhice. Hoje está aí filas, em hospital, INSS. Algumas pessoas tinham condições numa época, mas não guardaram, não fizeram um pé-de-meia, o que é difícil aqui no Brasil, onde é que tu vais investir e vai te garantir retorno. Então não se sabe o que vai acontecer.

Revista: Existe alguma coisa que o senhor fez e se arrependeu?
Grassi:
Com toda certeza. Eu investi muito na minha casa na Monte Alegre, depois fui vender e não consegui o que tinha investido. Investi durante quase dez anos. Mas acabei aprendendo com isso.