Personalidade
Mainar Bonetto
Uma das primeiras pessoas a morar na Santa Isabel, enquanto o loteamento ainda estava sendo construído, Mainar Bonetto nasceu no dia 8 de janeiro de 1947, em Caxias do Sul, vindo para a Santa Isabel junto com a família e o pai, Quintino Bonetto. Pai de Evandro, 34 anos, Eduardo, 32, Emerson, 30 e Eder, 25, Mainar Bonetto é Casado com Beatriz da Silva Bonetto. Irmão de Sérgio Luis, Marizete e Miriam, adora pescar na praia e todos os meses vai à Caxias do Sul, onde mora sua mãe, Nesta entrevista você conhece um pouco mais sobre Mainar Bonetto.

Entrevista concedida à Revista Santa Isabel
Revista da Santa Isabel: Quando o seu pai, Quintino Bonetto, veio para a Santa Isabel?
Mainar Bonetto: O pai veio no ano de 54. Ele veio junto com o pessoal para trabalhar na empreiteira, vindo antes da família. Ele ficou aqui um ano, um ano e meio e depois vieram minha mãe e nós, os filhos.

Revista: Vieram de onde?
Bonetto: Caxias do Sul. Na época eu tinha sete anos, mais ou menos. O Sérgio tinha uns quatro anos. As gurias nasceram aqui.

Revista: E por que ele veio para cá?
Bonetto: Ele já tinha serviço certo que seria o começo deste loteamento, a Santa Isabel. Eles vieram para cá, a idéia deles era ficar um ano trabalhando e ficaram uma vida.

Revista: Ele trabalhou até quando na empreiteira?
Bonetto: Ele ficou trabalhando até praticamente ela se dissolver. Foi durante anos. Depois de um tempo, o pai começou a trabalhar fora. Ele residia na Santa Isabel e trabalhava fora. Sempre na mesma tarefa, na terraplanagem.

Revista: Ele teve outra atividade fora isso?
Bonetto: O pai se aposentou fazendo isso. Quando ele se aposentou, quase não teve tempo de tirar proveito da aposentadoria.

Revista: Como foi a adaptação de Caxias para Viamão?
Bonetto: Pra nós era um outro mundo, sair do interior e ir para a capital. Foi bom demais. Era o que a gente esperava, bem mais.

Revista: Como era naquela época aqui?
Bonetto: A primeira igrejinha que teve aqui na Santa Isabel era ali na Medianeira e de madeira. O nosso primeiro padre que veio para cá era o padre Antônio. Depois do padre Antônio veio o Guilherme. Eu fui um dos primeiros coroinhas deste lugar, naquela época se chamava ajudante de missa. Eu fui coroinha até 18 anos, já era marmanjo. O pai não obrigava, mas era sagrado, todo domingo, era missa e depois tava liberado. Quando não tinha que ajudar a mãe a fazer a massa ainda, naqueles rolos, manual.

Revista: Onde era a casa de vocês?
Bonetto: A primeira casa, ali onde tem o bar do Valter (Recreio Avenida) e tem, à direita quem sai, tem quatro ou cinco casas iguais, a última à direita era a nossa. Muitos anos a gente morou lá. O pai foi embora daqui para Novo Hamburgo. Surgiu um serviço bom lá e ele foi com a máquina que ainda restava, um trator que ficou com ele. Ele tinha parte na empresa que iniciou aqui, ele tinha algumas cotas e ficou com uma máquina, um trator de esteira. Como em Novo Hamburgo não tinha naquela época trator de esteira, ele foi morar lá. Naquele meio tempo eu casei. Meu início, eu ia para Novo Hamburgo toda segunda-feira e voltava no final de semana, no sábado. Minha mulher ficava aqui, morávamos na rua ao lado do posto e ela ficava aqui me esperando.

Revista: Vocês casaram em que ano?
Bonetto: Em 1968. Nos conhecemos aqui. Naquela época eu morava aqui na Barão e isso aqui, onde está o posto, existia o que sobrou da Metalúrgica Heraud. O pai da Beatriz tinha um bar onde hoje funciona a Drogafar. Ali era uma casa de jogo onde a gente jogava. A Beatriz passava volta e meia e eu dizia, digo agora e dizia antes, “um dia eu vou pegar essa mulher pra dar um arrocho, não vai escapar”, e uma vez, sem mais nem menos, em uma reunião dançante a gente dançou junto e aí começou.

Revista: E o futebol, jogava já naquela época?
Bonetto: Eu devia ter uns 17 pra 18 anos na época quando o Nápoles surgiu. No Santa Isabel eu joguei pouco tempo. A nossa diversão na época, não tinha outra coisa a não ser futebol, então se jogava sábado à tarde, domingo pela manhã e também à tarde. Como a direção, quem comandava o Santa Isabel, exigia que a gente estivesse cem por cento no domingo, tinha que estar inteiro, é lógico que a gente não estava. Virou e mexeu, nós éramos três, quatro, a gente decidiu juntar um pessoal nosso e montar um “expressinho”, um time diferente e daí partiu a idéia. Aos poucos nós fomos juntando um aqui, um ali. O Nápoles foi assim, um clube que a gente participou e que fazia parte da gente. A gente não queria perder nunca, valendo ou não. Chorava se perdia o jogo. Quem me acompanhava muito na época, que gostava muito de futebol, o pai não perdia um jogo que eu ia. Onde eu estivesse ele estava junto. Nós disputamos campeonato na época, uma vez na Augusta, de chegar lá e estar ganhando de goleada, 3x0, e ter que entregar o jogo por que senão os caras iam pro pau e não tinha quem nos defendesse. O pai acompanhava muitas vezes e encarava, fazia a frente, mas do que adiantava, era o pai e mais um, dois. Éramos tudo guris, piá, mas tudo bom de bola, boleiro. O Nápoles ficou em 3º lugar em 64, 2º em 65 e em 66 fomos campeões de forma invicta.

Revista: Jogou em outros times?
Bonetto: No tempo em que eu joguei bola, em todos os times eu passei. Santa Isabel, Nápoles, Independente, Granada, Diamantina, Lomba do Sabão, Tamoio. Depois eu fui disputar o citadino de amadores pelo Rajada, na São Manoel. Na época, se fosse hoje, uma meia dúzia seriam profissionais ganhando um dinheirão. Na época a gente queria diversão. Não almejava tanto.

Revista: Existe um episódio em que vocês foram jogar no interior e foram recebidos como profissionais. Como foi?
Bonetto: No Nápoles aconteceu algo assim. Nós fomos jogar em Encruzilhada do Sul, terra do Aimoré, que era um dos cabeças. A gente ia jogar no fim de semana e viajamos no domingo.
O jogo era na segunda-feira, 7 de setembro, feriado. Na segunda-feira pela manhã, quando acordamos, fomos passear pela cidade e a gente ouvia eles anunciando “não percam, hoje, jogo tal”. Aquilo marcou muito. O jogo foi 7 a 6, e tinha uns lances assim: em um lance a bola veio da linha de fundo e o centroavante do time pegou a bola com as duas mãos e colocou dentro do gol, e o juiz deu o gol. Não dava pra fazer nada, era na casa deles. Uma hora anunciaram a escalação do time, no alto-falante da praça, acho que uma rádio amadora, eles falaram o time do Nápoles, acho que informado por um de nós, e lá pelas tantas eles não anunciaram o nome do Manoel Teonaz, o Maneco, que era irmão do nosso treinador, o Zé Baixinho. O Zé Baixinho ficou louco.

Revista: Como surgiu o Posto Bonetto?
Bonetto: O pai já tinha a idéia de mudar de ramo. Aquele posto de gasolina da parada 32 não existia e o pai já tinha pensado em abrir um posto lá. O meu irmão trabalhou na praça com um carro dele, se pagou, mas teve um empurrãozinho do pai. Eu trabalhava com o pai, chegava o fim de semana, ele pagava o que achava o que tinha que me pagar, mas o dinheiro não dava. Eu casado, o dinheiro não chegava, as prestações estourando e eu marcando passo. Eu sempre tive vontade, virou e mexeu, falei com o pai “tá na hora, vou ter que batalhar”. Naquele meio tempo, o pai deu entrada nos terrenos, assumiu a dívida toda, e eu fui à luta. Procurei a Ipiranga, eles me disseram que viriam aqui fazer um levantamento para dar uma posição.
Eu esperei, eles não vieram, daí fui lá e disse que não ia dar. Pensei em outras companhias, em seguida fui na Esso. Numa segunda-feira eu fui lá, levou uma semana, na outra segunda a Esso já tava com os equipamentos aqui. Eu fui à companhia, não tinha nem onde cair morto, disse pra eles que eu tinha um terreno e queria colocar um posto de combustíveis.
Eles vieram aqui, fizeram um levantamento e disseram “é futuro e vamos abrir”. O pai tinha dado aquela entrada nos terrenos e eu abracei o resto. A Esso instalou o equipamento, me deram produto para trabalhar, lubrificante a perder de vista e eu fui trabalhar. Naquela época, 24 horas por dia, sozinho. Eu fiz um levantamento naqueles dias de quantos carros existiam na Santa Isabel, eu levantava umas quatros horas da madrugada e ficava marcando um por um, quantos carros passavam. Isso foi 1970. Fiz um levantamento e passei pra eles. A gente tirou do nada. Não tinha financiamento, conta bancária. Eu virava as 24 horas. Daí eu pensei: isso ta errado, como é que eu não vou parar, não vou ir pra casa nunca, não vou descansar. Aí eu tive que
colocar alguém pra me ajudar, trabalhava então eu e a Beatriz.

Revista: E esta dificuldade ficou por muito tempo?
Bonetto: A gente foi se ajeitar um pouco lá pelos anos 80. Tudo que a gente recebia, tinha que pagar as dívidas. A gente dependia do movimento e era devagar. Eu semeei a agora estou colhendo. Depois que vieram os filhos, eles me deram uma grande força. O que eu ajudei, a força deles está sendo muito maior. Eu tiro o chapéu para eles. Eu devo muito também a minha esposa. A força que ela e os filhos me deram foi muito importante.

Revista: E o futuro de Mainar Bonetto ?
Bonetto: Eu estou pensando, confesso, não que eu esteja cansado por trabalhar demais, mas eu penso que a vida da gente é finita, e a vontade que eu tinha era deixar o posto na mão dos meu filhos.