Personalidades
 
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Severino Trevisan
Severino Trevisan é uma das pessoas que melhor representam o povo que construiu a Santa Isabel, com humildade e muito trabalho.
Nascido em Bento Gonçalves no dia 31 de outubro de 1922, Severino veio para cá casado com Natalina Anna Giacobbo Trevisan (nascida em 25/12/1924). Na época, o casal já tinha os filhos Isabel, hoje com 58 anos, Pedrinho, 57, Paulo, 54 e os gêmeos Ivan Carlos e Ivar José, os dois com 50 anos atualmente.

Mais precisamente, Severino e Natalina chegaram em Viamão no dia 14 de junho 1956, abrindo naquele ano o Restaurant Santa Izabel (com z, a grafia da época). Completados 60 anos de casados em 2007, o casal tem seis netos. Severino gosta muito de caminhar pela Santa Isabel, conversando com amigos que fez durante todos estes anos.

Entrevista concedida à Revista Santa Isabel

Revista: Por que vocês vieram para a Santa Isabel?
Severino:
Um amigo nosso, do interior de Bento Gonçalves, onde onde nascemos e nos casamos, tinha uma empresa de ônibus aqui em Porto Alegre, que vinha para a Santa Isabel. Ele estava começando e foi nos buscar em Dois Lajeados, onde morávamos na época. Era o Alcides Ceccone. Ele comprou o terreno do restaurante, veio para cá, mandou fazer a casa e eu vim olhar. Nós chegamos aqui no dia 14 de junho de 56. Moramos na Lauro Bandeira Lopes durante uma semana, enquanto terminavam de construir a casa.

Revista: Naquela época em que vocês chegaram aqui não existia restaurante, mercado etc?
Severino:
Não, o nosso era o único. Não tinha supermercado, nada. Em seguida abriu um bar.

Revista: E os ônibus, como era o transporte?
Severino:
Tinha um ônibus pela manhã e um à noite. Os ônibus ficavam ali onde é o Rissul agora, que era um banhado. Quando começava o dia, tinha que empurrar o ônibus para fora daquele banhado. Eu ia fazer as compras em Porto Alegre e a Natalina ia me esperar na parada 32, para carregar as sacolas.

Revista: O que vocês serviam, comida, lanches?
Severino:
Naquela época não existia lancheria. No restaurante tinha tudo, cafezinho, lanches, almoço, sanduíche, bolacha, tinha tudo.

Revista: Quem mais trabalhava no restaurante?
Severino:
Tinha a cozinheira que aparece naquela foto do cinema, a Angelina, que veio conosco lá de Dois Lajeados. Ela morou conosco durante quinze anos. Também trabalhou junto uma sobrinha minha, a Lourdes, que se casou algum tempo depois com o José Grassi. Mais tarde, vieram para ajudar as sobrinhas da Natalina: Iracema e Isolda.

Revista: E o senhor além das compras, servia no restaurante?
Severino:
Eu limpava tudo pela manhã e à noite. Era o primeiro que levantava e o último que dormia. Eu servia, fazia de tudo. Aos domingos tinha muita gente de Porto Alegre e o restaurante lotava. Eu apartava as brigas também. Até fecharmos o restaurante, havia marcas de bala e faca na porta da cozinha.

Revista: Vocês moravam no fundo do restaurante?
Severino:
Morávamos dentro do restaurante, no fundo. A entrada do restaurante era pela frente e a casa era pelo lado.

Revista: Quando vocês chegaram, quem já morava aqui?
Severino:
Antônio Furlan, Leomar Chavarria, Tenente Isabelino. O Willy veio mais ou menos na mesma época. Não tinha muita gente aqui. Tinha uma Farmácia na quadra do Rissul, tinha uma delegacia e uma capelinha, lá na Medianeira, que o ventou destruiu.

Revista: Como era a igreja naquele tempo?
Severino:
Depois da capelinha da Medianeira, começamos a levantar fundos para construir a Igreja que existe hoje. Na época da Medianeira, o padre Inácio vinha lá do seminário para rezar. Depois, o padre Guilherme chegou e a idéia da Paróquia começou a tomar forma.

Revista: Algumas pessoas moraram no restaurante junto a vocês?
Severino:
O Valdomiro Furlan vinha servir almoço, café da manhã e janta. Ele trabalhava na rua, no trator e vinha comer no restaurante, servindo para poder comer. Depois nós fizemos um galpão nos fundos e os motoristas dos ônibus moravam lá. Tinha também o pessoal da metalúrgica. Era um monte de gente que acabaram morando lá no galpão. Os diretores da metalúrgica, franceses, também moraram lá.

Revista: Vocês sempre participaram da igreja, Sogisi e outras entidades?
Severino:
Eu era sócio da Sogisi até pouco tempo atrás. Nós íamos aos bailes de carnaval na Sogisi. Na igreja nós sempre participamos. Sempre ajudávamos nas festas, na copa e fazendo comida. Levávamos os pratos e talheres de casa, pois a igreja ainda não tinha nada. Hoje, todo domingo vamos à missa. A Natalina participa do grupo das vovós.

Revista: Quando tinha uma festa na igreja era o senhor que chamavam?
Severino:
Sim, era eu que assava a carne. Eu era bem requisitado. No restaurante eu servia churrasco quase todos os dias.

Revista: Quando o restaurante foi fechado?
Severino:
Ficamos até 1980.

Revista: Vocês trabalhavam muito no restaurante?
Severino:
Não tínhamos tempo para nada. Nós não viajávamos, pois tínhamos que trabalhar muito.

Revista: O que vocês costumavam fazer nas horas de lazer?
Severino:
Quando a Natalina queria passear, ela saía e olhava as vitrines das lojas em Porto Alegre. Mas só olhava, não comprava. Olhava tudo que era vitrine, não precisava comprar. Quando os meninos eram um pouco maiores, eles ficavam cuidando do bar, daí saíamos e íamos ao cinema, ao teatro. Não éramos tão escravos assim.

Revista: E o cinema da Santa Isabel, vocês frequentavam?
Severino:
Claro. O cinema foi meu durante um certo tempo. Fiquei como sócio durante um tempo e depois vendi.

Revista: E como eram as escolas na época em que vocês chegaram?
Severino:
Existia uma escola lá na Medianeira. Era uma casa. Quando a Isabel começou a estudar tinha quatro séries em uma sala só, uma sala grande. Depois mais tarde, surgiu a escola Medianeira.

Revista: E o senhor chegou a trabalhar em outro lugar além do restaurante?
Severino:
Eu trabalhei dois anos fora do restaurante. Enquanto isso, os filhos cuidavam do restaurante e eu era porteiro em um edifício em Porto Alegre, trabalhando na parte da manhã até as duas horas da tarde.

Revista: E os seus filhos trabalharam onde?
Severino:
A Isabel trabalhou durante 21 anos na Madeireira Grassi, depois seis anos na Construfer e por último, até se aposentar, na Paróquia. O Pedrinho trabalhou em um escritório de Contabilidade no Centro de Viamão. O Paulo com 13 anos tinha carteira assinada. Ele era Office-boy e trabalhava com o Lauro Bandeira Lopes. O Ivan e o Ivar é que tiveram mais tranqüilidade.

Revista: Vocês tentaram investir em alguma coisa, terrenos etc?
Severino:
Tinha comprado um terreno pra lá do clube de mães, depois eu vendi.

Revista: O senhor não jogava futebol ou assistia?
Severino:
Meu filho, o Pedrinho é que jogava futebol. Uma vez eu fui levar ele, o Mainar (Bonetto) e o Valfredo (Gonçalves). Ele não tinha carteira para dirigir, daí fui levá-los. Eu fui só aquela vez.

Revista: Depois de fechar o restaurante, vocês viajaram bastante?
Severino:
Sim. Visitamos Buenos Aires, na Argentina, o Uruguai, o Paraguai e vários outros países. Quando nos aposentamos resolvemos viajar e conhecer estes lugares.

Revista: Vocês têm saudade de alguma coisa daquele tempo?
Severino:
Sim, a gente sente muita saudade. As pessoas eram dedicadas, muito amigas, conversávamos muito. Sinto falta das amizades daquele tempo. Hoje, muitos já morreram.